5 resultados encontrados com uma busca vazia
- O Brasil só consegue se olhar no retrovisor?
Em abril deste ano, mais de 1,6 milhão de brasileiros foram ao cinema ver a cinebiografia de Michael Jackson. R$ 40 milhões no primeiro fim de semana, sem debate, sem resistência, sem ninguém perguntando se merecia o esforço. Nas mesmas semanas, o cinema nacional acumulava sua segunda queda anual consecutiva de bilheteria. Em 2025, apenas 8,4% do público total escolheu um filme brasileiro. Ainda Estou Aqui, o melhor filme nacional em décadas por qualquer critério, o primeiro a ganhar o Oscar de Melhor Filme Internacional na história do país, fez 5,8 milhões de espectadores. Lilo & Stitch fez quase o dobro. Ninguém enfezou com isso. O Brasil tem um nome para isso. Nelson Rodrigues cunhou em 1958, ainda envolto na ressaca da Copa perdida para o Uruguu oito anos antes: complexo de vira-lata. A crença enraizada de que o que vem de fora é melhor por definição, e que o que é nosso, antes de qualquer argumento, provavelmente não presta. Não é preguiça intelectual. É uma postura aprendida, reforçada, e nos últimos anos, politicamente armada. Durante o governo passado, a cultura brasileira foi transformada em campo de batalha. A Lei Rouanet, principal ferramenta de financiamento do audiovisual nacional, virou sinônimo de dinheiro público bancando a esquerda. O secretário de Cultura Roberto Alvim, antes de ser demitido por plagiar um discurso do ministro de propaganda nazista Joseph Goebbels, declarou que o financiamento público seria reservado a filmes que "dignificassem o ser humano", ou seja, filmes que não questionassem nada. Em quatro anos, a mensagem foi martelada em grupos de família e redes sociais: apoiar cinema nacional é ser militante, defender arte brasileira é apenas fazer política e até mesmo alienação. A vergonha de gostar do que é seu foi plantada como se fosse opinião própria. E funcionou. Parte do público que hoje não vai ver nada nacional carrega esse condicionamento sem saber de onde veio. É nesse país que a fila de cinebiografias de 2026 precisa ser analisada. Chorão, Belchior, Roberto Carlos, Elza Soares, Carolina Maria de Jesus, Zeca Pagodinho, a leitura fácil é que a indústria está sendo conservadora, apostando em nomes seguros. Mas há uma camada mais incômoda: esses artistas não chegaram onde chegaram porque o Brasil os apoiou enquanto viviam, chegaram apesar do Brasil. Belchior passou a última década de vida praticamente sumido. O jornalista Jotabê Medeiros escreveu sua biografia justamente porque o cantor estava desaparecendo do olho público antes de morrer, em 2017. No ano seguinte à sua morte, virou cult. Hoje vai virar filme. É o mesmo ciclo de sempre: o Brasil não sabe o que tem enquanto está vivo, e descobre quando não dá mais para perder. Carolina Maria de Jesus escreveu vinte cadernos à mão na favela do Canindé. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas foi ao bairro fazer uma reportagem, encontrou os cadernos e os transformou em livro e sem ele, a obra não existia como objeto editorial, o que já diz muito sobre quem historicamente decide o que vira cultura por aqui. Quarto de Despejo vendeu cem mil exemplares em um ano e foi traduzido para treze idiomas. Ainda assim, o meio intelectual da época não aceitou que aquela mulher negra, catadora, moradora de favela, pudesse ter escrito aquilo sozinha. Circulava a teoria de que era obra de "um espertalhão, um golpe publicitário." Carolina morreu em 1977 quase esquecida. Agora vai virar filme, premiado em Cannes antes de estrear, dirigido por Jeferson De. Uma conquista, de fato, mas com o mesmo filtro de sempre: alguém de fora decidindo quando a história dela está pronta para ser contada. Elza Soares passou décadas sendo marginalizada pela própria indústria que hoje a reverencia. Chorão enchia estádio enquanto a grande mídia olhava para outro lado. O país que não os sustentou enquanto viviam agora os transforma em produto seguro, com público já formado, trilha sonora conhecida e saudade suficiente para vender ingresso sem precisar convencer ninguém. A Times Brasil descreveu sem rodeios: o cinema nacional investe em cinebiografias para "reduzir risco ao trabalhar com marcas já conhecidas do público." Marcas. É isso que Belchior virou. É o vira-latismo operando de dentro para fora: o Brasil só consegue valorizar o que já passou pelo crivo do tempo, porque confiar no presente ainda parece arriscado demais. Quando "Homem com H", sobre Ney Matogrosso, estreou em 2025, as salas encheram. Mais de 600 mil ingressos, liderança na Netflix. Funcionou porque Ney ainda está vivo, ainda incomoda, ainda não cabe em moldura. Não era homenagem. Era um encontro. E essa diferença importa, porque o cinema que chegou ao Oscar — Walter Salles, que nunca fez filme neutro na vida e ainda bem — é o cinema que tratou o presente como urgente, não como risco. A resposta da indústria a esse momento histórico foi uma fila de biografias de quem já se foi. Isso não é crítica aos filmes, de forma alguma. É uma pergunta sobre o que o Brasil está fazendo com o momento que tem. O mesmo público que foi ver Michael Jackson sem pestanejar, que cresce numa cultura que aprendeu a sentir vergonha do que é seu, precisa ser o mesmo público que enche sala para Belchior, para Carolina, para um diretor de 30 anos com roteiro que ninguém nunca ouviu falar. Não porque é obrigação patriótica. Mas porque arte nacional não é concessão, é o único espelho que mostra o Brasil de verdade. E o Brasil tem fugido desse espelho há tempo demais. O Brasil só consegue se olhar no retrovisor porque o para-brisa dá trabalho demais. As cinebiografias de Chorão, Belchior, Roberto Carlos, Elza Soares, Carolina Maria de Jesus e Zeca Pagodinho estão em produção ou aguardando data de estreia ao longo de 2026. O filme Michael arrecadou R$ 40 milhões no Brasil no primeiro fim de semana, em abril de 2026.
- Evita sabia exatamente para quem estava falando
Há mulheres que a história tenta domesticar depois da morte. Com Eva Perón, isso nunca funcionou muito bem. Ela já foi chamada de santa, oportunista, mãe dos pobres, atriz ambiciosa, mártir, populista, manipuladora, revolucionária, exagerada, perigosa. Às vezes, tudo isso no mesmo parágrafo. Talvez seja por isso que Evita continue tão viva: porque sua imagem nunca aceitou ou sequer pôde ficar quieta dentro de uma versão única. Para quem olha a política como comunicação, ela é um caso quase irresistível. Não porque tenha sido “boa de imagem”, no sentido raso e corporativo da expressão, mas porque entendeu algo que muita marca, governo e figura pública ainda tenta fingir que não importa: ninguém se vincula de verdade a uma mensagem se não sente que aquela mensagem também está falando de sua própria vida e Evita sabia disso. Antes de ser primeira-dama da Argentina, foi Eva Duarte: filha ilegítima, atriz de rádio, mulher pobre do interior tentando existir em Buenos Aires sem pedir desculpa pelo incômodo que causava. Quando Juan Domingo Perón chegou à presidência em 1946, ela se tornou muito mais do que apenas “a esposa de”, marcando uma presença política própria, ainda que sem cargo formal. A Britannica resume que durante o primeiro governo Perón, ela se tornou uma líder política poderosa, mesmo não oficial, reverenciada especialmente pelas classes trabalhadoras. Mas a palavra “reverenciada” sozinha não explica nada. Ela é construída, repetida, encenada, merecida, disputada. No caso de Evita, vinha de uma combinação de voz, corpo, rádio, assistência social, ressentimento de classe, feminilidade, teatralidade e uma capacidade absurda de transformar proximidade em poder. É por isso que pensar Eva Perón pelas Relações Públicas é tão interessante. Ela não fazia apenas propaganda tampouco era uma benfeitora movida por bondade. O que ela fazia era mais difícil de se interpretar, ela transformava ação social em relação política, e relação política em memória afetiva. A Fundação Eva Perón, criada em 1948, é talvez o exemplo mais forte dessa mistura. Segundo o Museo Evita, em La razón de mi vida, Evita apresentava sua atuação social como uma missão quase íntima, ligada ao sofrimento dos pobres e ao papel que ela atribuía a si mesma dentro do peronismo. Na prática, a Fundação distribuía bolsas, roupas, brinquedos, assistência médica, moradia e apoio material a pessoas que muitas vezes eram ignoradas pelo Estado tradicional e pela caridade elegante das elites. Ao mesmo tempo, também não dá para fingir que a Fundação existia fora da política. Seu nome, sua imagem, sua presença e sua assinatura estavam no centro de tudo. A ajuda vinha com rosto e o rosto era o dela. Um estudo sobre saúde pública na América Latina, da Macalester College, aponta justamente essa dimensão dupla: a Fundação ampliou assistência social, educação e saúde, mas também funcionou como parte do imaginário peronista. Em outras palavras: fazia diferença na vida das pessoas, mas também consolidava devoção. Essa é uma tensão importante. Reduzir tudo a manipulação é cruel, mas tratar tudo como generosidade desinteressada é ingênuo. Evita era grande demais para caber em categorias tão rasas. Em comunicação ela escolhia lados com uma clareza que hoje pareceria quase impensável em um mundo onde instituições gastam páginas e páginas dizendo “impacto”, “comunidade” e “propósito” sem se comprometer com quase nada. Evita não falava para todos, ela falava para os seus. E, ao fazer isso, transformava o desprezo dos outros em parte da sua força. A elite argentina a via como uma invasão. Evita tinha origem errada, profissão errada, modos errados, intensidade errada. Era atriz demais, loira demais, dramática demais, popular demais. O incômodo que ela causava não vinha só do peronismo, vinha também do fato de uma mulher como ela ocupar uma cadeira de tamanho poder sem se comportar como alguém grata por ter sido deixada entrar. Esse talvez seja um dos aspectos mais modernos de sua imagem. Evita não tentou em momento algum suavizar totalmente sua inadequação. O luxo de Evita sempre foi usado contra ela, como se uma mulher associada aos pobres tivesse obrigação estética de parecer pobre também. Mas há outra leitura possível: para muita gente, aquela elegância não era contradição, mas uma revanche visual. Era uma mulher vinda de baixo usando o repertório da elite sem pedir permissão. Isso não apaga o caráter performático da imagem, mas performance não é sinônimo de falsidade. Na política, toda imagem é uma construção. A diferença é que algumas construções fingem naturalidade. Evita não. Ela parecia entender que poder também se encena e que, para quem sempre foi excluído dos salões, a encenação pode ser uma forma de tomar o palco. O rádio, inclusive, foi essencial nisso. Evita veio desse mundo, veio do cênico, ela sabia modular emoção, pausa, apelo, repetição, falar como quem convoca e consola ao mesmo tempo. No discurso do voto feminino, pronunciado em 23 de setembro de 1947 na Plaza de Mayo, ela chamou as argentinas de “mulheres da minha pátria” e apresentou a nova lei não apenas como uma conquista jurídica, mas como uma entrada simbólica das mulheres na vida nacional. O texto está preservado pelo El Historiador, a partir de compilação da Biblioteca do Congresso da Nação argentina. A conquista do voto feminino na Argentina foi formalizada pela Lei 13.010, sancionada em 1947. O próprio governo argentino registra que, em 11 de novembro de 1951, as mulheres votaram e puderam ser eleitas pela primeira vez em uma eleição nacional no país (Argentina.gob.ar). Evita não foi a única responsável por esse processo, nenhuma conquista histórica séria nasce de uma pessoa só, mas sua participação pública ajudou a dar rosto, voz e urgência política à causa. Aqui também existe uma ambiguidade que é, Evita abriu espaço para a participação política feminina, organizou mulheres, mobilizou eleitoras e ajudou a transformar um direito em presença pública. Mas não se encaixa facilmente no feminismo como muita gente gostaria de projetar hoje. Seu discurso frequentemente associava a mulher à missão, ao lar, ao sacrifício, à lealdade a Perón. Ela ampliava o campo de ação das mulheres enquanto mantinha parte da linguagem tradicional que as limitava. Isso a torna menos importante? Não. Evita não precisa ser atualizada artificialmente para parecer perfeita em 2026. Ela pertence ao seu tempo, e é justamente daí que vem sua força histórica. Seu poder não estava em falar como uma feminista contemporânea, mas em deslocar, dentro de uma estrutura profundamente masculina, o lugar possível de uma mulher na política de massas. E ela fez isso com uma intensidade que ainda assusta. Em 17 de outubro de 1951, já muito doente, Evita discursou aos descamisados no Dia da Lealdade. O discurso, preservado pelo Archives of Women’s Political Communication e também pelo Marxists Internet Archive, é quase impossível de ler sem perceber o quanto ela dominava a gramática emocional do pertencimento. Ela fala em dívida sagrada, em povo, em trabalhadores, em Perón, em lealdade. E funcionava porque vinha de uma personagem pública que havia sido construída, durante anos, como ponte entre o poder e os que se sentiam fora dele. Esse é o ponto que as relações públicas às vezes esquecem quando tentam parecer técnicas demais: uma imagem pode convencer por um tempo, mas só um vínculo atravessa gerações. Evita construiu muitos vínculos. A pergunta, muitas vezes incômoda é a que vem depois: vínculo com quem? Em nome de quê? A serviço de qual projeto? Porque também é verdade que o peronismo concentrou poder, tensionou instituições, perseguiu opositores e cultivou uma relação fortemente personalista com as massas e Evita fazia parte disso. Não dá para isolá-la do movimento que a produziu e que ela ajudou a fortalecer. A devoção que despertava tinha beleza, mas também tinha risco. Quando a política depende demais de uma figura, o direito pode começar a parecer favor, e a cidadania pode se confundir com gratidão. Mas talvez seja justamente por isso que Evita continue sendo uma aula tão poderosa. Ela mostra que reputação não é sinônimo de consenso. Algumas imagens públicas permanecem porque dividem. Porque incomodam, concentram amor e ódio em doses parecidas. A memória de Evita ainda é disputada porque ela não foi decorativa. Ela mexeu com estruturas de classe, gênero, assistência social, mídia, poder, desejo popular. Sua morte, em 1952, aos 33 anos, só aprofundou o mito. O corpo jovem, doente, sacrificado, a mulher que trabalhava até o limite, a figura pública que parecia se consumir pela própria missão. Há algo perigoso nessa imagem também. Sociedades adoram transformar mulheres fortes em mártires depois que elas já não podem mais disputar poder em vida. Com Evita, a morte ajudou a congelar uma narrativa de entrega total e bonita, sim, mas também cruel. Ainda assim, há algo nela que resiste à tentativa de reduzir tudo a manipulação. Talvez porque Evita tenha entendido a dor social não como estatística, mas como cena públicac porque tenha dado nome e rosto a pessoas que estavam acostumadas a aparecer apenas como problemas, porque sua teatralidade, tão criticada, fosse também a ferramenta que ela tinha para furar uma ordem feita para mulheres como ela permanecerem pequenas. Eva Perón não deve ser santificada. Isso seria fácil demais, e ela não foi uma mulher fácil como apenas um exemplo de propaganda. Ela deve ser lida como uma mulher que compreendeu, antes de muita gente, que comunicação pública é construir uma relação emocional com um público que reconhece, naquela mensagem, uma versão mais digna de si mesmo. Evita sabia exatamente para quem estava falando. E talvez seja por isso que, tantas décadas depois, ainda pareça que ela está sendo ouvida.
- Irã: Por que não podemos deixar de olhar
Imagine não poder respirar e imagine ter fome mas não poder se alimentar. Agora imagine que essa situação não melhora, ela piora a cada dia e o mundo simplesmente para de prestar atenção. Essas palavras de Kamin Mohammadi, escritora e jornalista iraniana são a realidade nua e crua de 90 milhões de iranianos no exato momento em que você está lendo este artigo. Desde 28 de dezembro, o Irã enfrenta um apagão de internet. Trata-se de um cerco tecnológico que impede que informações entrem e, principalmente, que saiam do país. Segundo a Human Rights Activists in Iran (HRA/HRANA), organização que cruza informações com fontes dentro do país, 5.002 pessoas foram mortas desde o início dos protestos — incluindo 43 crianças menores de 18 anos. Mais de 12.000 casos ainda aguardam verificação. Mas devido ao bloqueio contínuo da internet, a documentação avança com extrema lentidão. Skylar Thompson, diretora adjunta da HRA, declarou: "Apesar dos bloqueios contínuos da internet, permanecemos comprometidos em documentar cada ser humano por trás da brutalidade do regime e em desafiar a tentativa do regime de retratar os corajosos iranianos como qualquer coisa menos do que isso." Os números são chocantes, mas as histórias individuais são ainda mais devastadoras. Kamin Mohammadi relata: "Há histórias de mães tendo que vasculhar pilhas de corpos para identificar seus filhos mortos; de ter que pagar um preço por bala, por cada bala com a qual foram atingidos, para conseguir os corpos de volta." Essa é a escala da desumanização, transformar o luto em mercadoria e converter a dignidade em moeda de barganha. Mohammadi descreve a dimensão do bloqueio: "Este país está em apagão de internet há quase três semanas. Se você fosse um manifestante e estivesse sangrando no chão, não poderia nem chamar uma ambulância." O controle da informação corta as linhas de vida básicas. É sobre isolar completamente a população, transformando cada cidade, cada rua, cada residência em uma ilha cercada de silêncio forçado. Como ela destaca: "Não se trata apenas de cortar as pessoas do mundo exterior, trata-se de cortá-las de dentro." Quando não é possível comunicar emergências médicas, coordenar ajuda humanitária ou simplesmente informar familiares sobre sua segurança, o Estado consegue fragmentar a própria sociedade, destruindo os laços de solidariedade que sustentam qualquer resistência coletiva. Talvez o aspecto mais assustador seja esse: à medida que as notícias mudam, o Irã acaba deixando de ser destaque. As redes sociais pulam para o próximo assunto viral, e os algoritmos, que só pensam em gerar engajamento imediato, não se importam com o sofrimento das pessoas. Mas a dor não desaparece só porque a atenção diminui. Mohammadi explica bem essa realidade cruel: "Hoje, mais do que nunca, precisamos estar atentos ao Irã. A violência desse regime é sem precedentes. As pessoas estão presas dentro do país, sendo reprimidas por um governo que não mostra misericórdia." O pedido não é por pena, é por ação e testemunho. Porque, quando o mundo vira as costas, os regimes autoritários interpretam isso como um sinal de que podem intensificar ainda mais a violência. O silêncio internacional, nesse sentido e realidade, acaba sendo uma forma de cumplicidade. A pergunta que inevitavelmente surge é A resposta pode parecer insuficiente diante da magnitude da crise, mas não insignificante. Primeiro, amplificar vozes iranianas. Organizações como a Abdorrahman Boroumand Center for Human Rights in Iran, Center for Human Rights in Iran (CHRI), Middle East Matters (MEM) e Human Rights Activist News Agency (HRA/HRANA) trabalham incansavelmente para documentar violações e dar voz aos silenciados. Seguir, compartilhar e apoiar essas organizações é fundamental. Segundo, recusar a normalização. Quando o Irã desaparece das manchetes, é confortável presumir que a situação melhorou. Mas o apagão de informação é precisamente projetado para criar essa ilusão. Manter a atenção, fazer perguntas, exigir cobertura jornalística contínua também ajuda. Terceiro, pressionar governos e instituições. Sanções direcionadas a autoridades responsáveis por violações de direitos humanos, apoio a organizações humanitárias que trabalham com refugiados iranianos, e insistência em que organismos internacionais mantenham o Irã na agenda, tudo isso faz diferença. Quarto, educar-se e educar outros. A desinformação e a simplificação excessiva são aliadas da repressão. Entender a complexidade da situação iraniana, as raízes históricas do regime atual, as dinâmicas internas da resistência, isso nos torna defensores mais eficazes. O lema "Mantenha seus olhos no Irã" é também uma forma de sobrevivência, porque regimes autoritários crescem na escuridão, na invisibilidade, confiantes de que podem agir sem serem percebidos ou punidos. Mohammadi resume bem: "No Irã, estamos vendo um massacre numa escala nunca antes vista." Diante dessa realidade, a indiferença não é uma opção moralmente aceitável. Não precisamos ter todas as respostas ou ser especialistas em política do Oriente Médio. Basta simplesmente nos recusar a desviar o olhar. A história nos julgará não apenas pelas coisas que fizemos, mas também pelas que vimos e decidimos ignorar. Os 90 milhões de iranianos cortados do mundo neste momento são professores, estudantes, médicos, artistas, mães, pais, crianças. Pessoas que têm o direito fundamental à dignidade constantemente negado, pessoas gravemente negligenciadas. Kamin Mohammadi ainda tenta se comunicar com sua família por causa do apagão. Milhares de outras famílias estão na mesma situação difícil e desesperadora e enquanto isso, o regime aproveita nossa atenção limitada, nossa fadiga com notícias ruins e nossa tendência de seguir em frente sem parar para pensar. Porém, temos a possibilidade de escolher algo diferente. Podemos escolher lembrar, podemos escolher falar, podemos optar por agir, mesmo que nossas ações pareçam pequenas diante de tanto sofrimento. Porque, como a resistência iraniana mostra dia após dia, coragem não é a ausência de medo ou de impotência, é a recusa de deixar que eles tenham a última palavra. Confira aqui Organizações para amplificar e apoiar • Abdorrahman Boroumand Center for Human Rights in Iran • Center for Human Rights in Iran • Middle East Matters • Human Rights Activist News Agency
- Mulheres em ascensão no metal e suas vertentes em 2026
O metal sempre foi considerado um espaço predominantemente masculino, onde a força sonora e a energia nas apresentações eram encaradas como partes de uma masculinidade que não precisava ser questionada, mas a virada dos anos 2020 trouxe uma mudança que não pode mais ser ignorada: mulheres estão redefinindo o que o metal pode ser e quebrando as regras que nunca fizeram sentido desde o início. A participação de mulheres no metal não é algo totalmente novo. Nos anos 1970, bandas como Girlschool e The Runaways já mostravam que as mulheres tinham talento e podiam tocar tão bem quanto os homens. No entanto, foi mesmo nos anos 2000 que Angela Gossow do Arch Enemy mudou o cenário de verdade. Quando ela entrou para a banda sueca em 2001, Gossow abriu portas que antes pareciam trancadas a sete chaves. Serena Cherry do Svalbard declarou que ver Angela no palco mudou sua vida para sempre, e ela não estava sozinha, uma geração inteira de vocalistas femininas do death metal existe porque Angela mostrou que era possível. Nos anos 2010 vieram as rainhas do metal sinfônico como Floor Jansen do Nightwish e Simone Simons do Epica, mostrando que técnica vocal operística podia conviver perfeitamente com riffs pesados e baterias duplas, mas foi nessa década de 2020 que algo diferente começou a acontecer. O metal deixou de ser como um clube de garotos e passou a ser um movimento onde mulheres realmente lideram a conversa. O termo "girlie pop metal" começou a circular nas redes sociais, playlists no Spotify e Apple Music se multiplicaram com subgêneros variados, e o TikTok viu coreografias sendo criadas para músicas de Korn e Slipknot, transformando algo que antes era visto como exclusivamente masculino em algo que mulheres abraçam sem pedir licença. Em 2026 o cenário está completamente diferente: Emily Armstrong assumiu o vocal do Linkin Park em setembro de 2024 substituindo Chester Bennington em um dos desafios mais impossíveis da história do rock, e o álbum "From Zero" provou que ela não estava tentando copiar ninguém, estava trazendo sua própria identidade. A turnê mundial que ela está liderando inclui festivais gigantes como Rock am Ring e Rock in Rio Lisboa, e sua capacidade de transitar entre vocais melódicos e guturais conquistou milhões de fãs que entenderam que o Linkin Park não acabou, apenas se transformou, literalmente, do zero. Courtney LaPlante do Spiritbox também é outra gigante que não passa despercebida, sua versatilidade vocal que vai de passagens etéreas a breakdowns incríveis fez do Spiritbox uma das bandas mais importantes do metal progressivo atual, o álbum "Tsunami Sea" consolidou a banda como referência e a participação dela na faixa "End of You" ao lado de Amy Lee e Poppy foi um marco que celebrou a diversidade do metal feminino. A música estreou em primeiro lugar na parada Billboard Hot Hard Rock Songs e os fãs imediatamente pediram um álbum colaborativo das três. E falando em Amy Lee, a rainha organizou uma turnê mundial exclusiva com bandas lideradas por mulheres incluindo Spiritbox, Poppy, Nova Twins e K.Flay, a decisão veio depois das colaborações recentes e ela explicou que queria criar um espaço onde todas pudessem dividir o palco, uma forma de celebrar o que cada uma representa no metal contemporâneo e mostrar que a diversidade sonora é um patrimônio. Amy também está produzindo um novo álbum do Evanescence que promete abordar temas urgentes do mundo atual sem perder a essência gótica que sempre definiu a banda. Em seguida temos Tatiana Shmayluk, do Jinjer, que carrega uma história um tanto quanto pesada. Ela deixou a Ucrânia por causa da guerra e hoje vive na Califórnia, e essa dor permeia o álbum "Duél" lançado em fevereiro de 2025. Tatiana já se manifestou publicamente contra o termo "banda com vocal feminino", argumentando que é redutor e a coloca em comparações injustas com artistas que não têm nada a ver com o som da banda, ela deixou claro que suas influências vocais sempre foram masculinas, especialmente Randy Blythe do Lamb of God e sua técnica que vai do growl devastador aos vocais limpos angelicais faz dela uma das artistas mais respeitadas do metal extremo. E é do Brasil também! A brasileira Prika Amaral da banda Nervosa está fazendo história ao levar o thrash metal brasileiro para o mundo. A banda comemorou 15 anos de carreira em 2025 e se tornou a primeira banda de metal formada exclusivamente por mulheres a tocar na China. Prika assumiu os vocais em 2023 depois de anos apenas na guitarra e a transição trouxe uma nova energia para o grupo que hoje tem formação internacional, o álbum "Slave Machine" está programado para abril de 2026 e promete manter viva a chama do thrash mais visceral. Dando sequência, outro nome em destaque é o de Alissa White-Gluz, que saiu do Arch Enemy em novembro de 2025 após 12 anos para focar em sua carreira solo sob o nome artístico ALISSA. O single "The Room Where She Died" mostrou que ela está explorando territórios musicais que ficaram dormentes durante anos, ela foi pioneira ao provar que mulheres podem dominar os vocais guturais do death metal com a mesma intensidade que seus pares masculinos, e foi justamente Angela Gossow quem a recomendou como sua substituta no Arch Enemy em 2014, criando uma linhagem de vocalistas femininas que continua inspirando novas gerações. E falando em divas que saíram de suas bandas para explorar o solo, Simone Simons do Epica lançou seu primeiro álbum solo "Vermillion" em agosto de 2024 em colaboração com Arjen Lucassen do Ayreon, um projeto que estava 15 anos em produção. O álbum explora territórios que vão do prog rock ao metal industrial com elementos eletrônicos, incluindo colaboração com Alissa White-Gluz na faixa "Cradle to the Grave", em 2026 ela está preparando a turnê "Arcane Dimensions" com o Epica ao lado do Amaranthe para divulgar o novo álbum "Aspiral" lançado em abril de 2025. Agora uma de nossas favoritas, Floor Jansen do Nightwish está aproveitando a pausa da banda para trabalhar em seu segundo álbum solo, ela já confirmou que tem material escrito e está colaborando com diversos artistas, Floor lançou seu primeiro álbum solo "Paragon" em 2023 e deixou claro que nunca deixaria o Nightwish, mas que a carreira solo permite explorar territórios musicais diferentes do metal e rock que já faz há mais de 20 anos, sua técnica vocal e presença de palco a tornaram uma das vocalistas mais respeitadas do metal sinfônico mundial. Além dela, Lzzy Hale do Halestorm lançou o álbum "Everest" em agosto de 2025 e teve um ano histórico que incluiu abertura para Iron Maiden e participação no "Back to the Beginning", o último show do Black Sabbath e Ozzy Osbourne, sendo a única mulher convidada para o evento. Lzzy foi nomeada primeira embaixadora feminina da Gibson e em 2026 está fazendo turnês acústicas intimistas com o guitarrista Joe Hottinger além dos shows massivos do Halestorm em festivais como Download e Sonic Temple. De youtuber para uma das vozes mais queridas do metal atual, Poppy começou na música pop e se reinventou completamente no metal, silenciando os céticos com apresentações viscerais. Sua performance no Hellfest 2025 conquistou até os mais desconfiados e a participação em "End of You" com Amy Lee e Courtney LaPlante mostrou que ela merece estar entre as grandes, Poppy mistura melodias açucaradas com screams dilacerantes de forma inquietante e única, criando uma estética visual e sonora que desafia todas as expectativas do que uma artista de metal deveria ser. Maria Brink do In This Moment também continua sendo uma das presenças de palco mais teatrais e poderosas do metal moderno, conhecida por performances que misturam elementos visuais intensos com um som pesado que transita entre metal industrial e hard rock. Maria é uma veterana que segue relevante e influente, inspirando uma nova geração de artistas femininas a abraçarem a teatralidade e a feminilidade sem medo de serem julgadas. Assim como Candace Kucsulain do Walls of Jericho trouxe energia pura e raiva política para o Hellfest 2025, o set da banda foi descrito como "fúria e libertação". Candace é uma presença magnética que mostra que o hardcore e o metalcore feminino têm força e convicção para competir com qualquer banda do cenário, sua autenticidade e intensidade são inegáveis. Mercedes Lander e Morgan Lander do Kittie também são lendas vivas do metal feminino, a banda toda é composta por mulheres e cada integrante traz intensidade real para o palco, as letras abordam temas como abuso e resiliência com convicção verdadeira, e a apresentação no Hellfest 2025 mostrou que veteranas sabem exatamente o que estão fazendo, a presença de palco da baixista com seus cabelos épicos e flips de cabeça viraram destaque entre os fãs. E por último mas jamais menos importante, Vicky Psarakis está liderando sua nova banda que faz a ponte entre nu-metal e hard rock teatral, o álbum "Cross Me Twice" lançado em 2025, que já chamou atenção pela energia e vocais dinâmicos que alternam entre limpos e guturais, e produção de alto nível. Ela não tem medo de pegar pesado tanto sonoramente quanto tematicamente e representa uma nova onda de vocalistas que abraçam múltiplas facetas vocais sem se limitar a um único estilo. Esse movimento apesar de atual não aconteceu do nada, foi construído ao longo de décadas por mulheres que se recusaram a aceitar que o metal pertencia aos homens. Desde as pioneiras dos anos 1970 até os anos 2020, cada geração abriu portas para a próxima, mas o que torna 2026 especial é que mulheres não estão mais pedindo permissão ou justificando sua presença, estão liderando turnês mundiais, liderando festivais, colaborando entre si e criando uma rede de apoio que antes não existia.
- Tokenismo, diversidade e responsabilidade social no caso Simone Ashley e a imagem da Netflix
A indústria do entretenimento está passando, nessas primeiras décadas do século XXI, por um período de reconfiguração no que diz respeito às políticas de representação e identidade. Se durante grande parte do século XX a hegemonia de Hollywood e das produções televisivas ocidentais foi marcada pela invisibilidade ou pela estereotipização de grupos minoritários, a ascensão das plataformas de streaming inaugurou uma nova era caracterizada pela "diversidade global". Com isso, a Netflix se consolidou como uma força que constrói sua reputação corporativa em torno de valores progressistas, da inclusão e da promessa de "uma TV para o mundo". A plataforma colabora com iniciativas como a USC Annenberg Inclusion Initiative para medir e ampliar representação de gênero, raça/etnia e grupos LGBTQIA+ tanto nas telas quanto dentro da própria organização, publicando relatórios de inclusão que buscam transparência sobre esses esforços. Posteriormente, a série Bridgerton, lançada em dezembro de 2020 sob a chancela da produtora Shondaland de Shonda Rhimes, surgiu como uma referência dessa estratégia. Ao reimaginar a Regência Britânica através de uma lente diversificada, a produção propôs um pacto visual de reparação histórica, ainda que no terreno da fantasia. E foi justamente Shonda Rhimes quem declarou sem rodeios sua visão: "A ideia de que não criamos mundos que se parecem com o mundo em que vivemos, e que criamos sociedades falsas onde todo mundo parece de uma certa maneira ou é de uma certa cor, me parece falso. Também me parece apagamento. Não estamos interessados em apagar ninguém da história, nunca." São palavras bonitas, mas, infelizmente, não foram o suficiente para tomar atitude na hora de valorizar e proteger uma das personagens mais importantes da série. A passagem de uma representatividade mais simbólica para uma verdadeira igualdade se mostrou um caminho cheio de dificuldades e contradições, revelando justamente o tipo de apagamento que Rhimes dizia tentar combater. Simone Ashley, nascida em 30 de março de 1995 em Surrey, Inglaterra, é uma atriz britânica de ascendência tâmil indiana que ganhou destaque por suas atuações em produções de grande alcance internacional. Filha de pais indianos tamil que imigraram para o Reino Unido, Ashley cresceu navegando entre duas culturas como ela mesma compartilhou em entrevista à Glamour: "Meus pais eram bem protetores comigo. Eles são de primeira geração. Eles vieram da Índia para este país, então não tiveram realmente uma vida onde pudessem escolher ser o que quisessem." Formada na ArtsEd School de Londres, Ashley iniciou sua carreira com participações em produções como Broadchurch (2017) e Sex Education (2019), série da Netflix em que interpretou Olivia Hanan. Sua presença constante em produções voltadas a públicos jovens e diversos consolidou sua imagem como representante de uma nova geração de artistas que desafiam padrões eurocêntricos. A projeção internacional de Ashley se intensificou dramaticamente com sua escalação como protagonista da segunda temporada de Bridgerton (2022), onde interpretou Kate Sharma. Jonathan Bailey, que interpretou Anthony Bridgerton ao lado de Ashley, foi ainda mais efusivo: A segunda temporada tornou-se um sucesso global sem precedentes. A personagem Kate Sharma foi celebrada por ampliar a representatividade sul-asiática em produções de época, tradicionalmente marcadas pela ausência de diversidade racial. Rhimes defendeu a decisão: "Encontrar mulheres sul-asiáticas com pele mais escura e garantir que elas fossem representadas na tela de forma autêntica e verdadeira parece algo que não vimos o suficiente. Senti que era hora de garantirmos que estávamos vendo o máximo possível." Fãs sul-asiáticos celebraram emocionalmente pela primeira vez se verem refletidos de forma digna em uma produção de época. Comentários nas redes sociais expressaram esse sentimento: "Bridgerton é a primeira vez que me senti respeitada e representada de forma satisfatória. Como um abraço caloroso de uma garota marrom coberta de haldi. Obrigada @shondarhimes" "Ver mulheres tâmil sul-asiáticas de pele escura em um grande show da Netflix é tão reconfortante. Há tanto colorismo e racismo só na Ásia do Sul, sem falar em sua indústria cinematográfica, então estou além de orgulhosa de todas as belas mulheres marrons em Bridgerton sendo a representação que precisávamos" "Nunca consegui parar de pensar em como Bridgerton é a primeira vez que vi um personagem indiano na televisão sem fazer disso um grande problema. Eles não são diferentes porque são marrons, eles simplesmente SÃO" No entanto, essa celebração inicial daria lugar a uma decepção profunda e uma lição dolorosa sobre a diferença entre representação e respeito. A forma como a série e a própria Netflix geriram a continuidade e a visibilidade de Ashley nas temporadas seguintes provocou debates intensos sobre a superficialidade das políticas de diversidade no entretenimento contemporâneo. O caso se tornou emblemático quando os fãs começaram a documentar as diferenças no tratamento promocional. Como evidenciado nas imagens compartilhadas, artigos da própria Netflix e de veículos como Variety sistematicamente omitiram o nome de Simone Ashley, referindo-se a ela apenas como "Kate Bridgerton" - o sobrenome de casamento da personagem - enquanto todos os outros atores eram identificados pelos seus nomes reais. Um artigo da Variety sobre o elenco de Bridgerton listou: "Luke Thompson, Yerin Ha, Jonathan Bailey, Victor Alli, Adjoa Andoh, Julie Andrews, Lorraine Ashbourne, Masali Baduza, Nicola Coughlan, Hannah Dodd, Daniel Francis, Ruth Gemmell, Florence Hunt, Martins Imhangbe, Claudia Jessie, Luke Newton, Golda Rosheuvel, Will Tilston, Polly Walker, Emma Naomi, Hugh Sachs, Kate Bridgerton, Isabella Wei, Michelle Mao, Katie Leung." Note: todos com seus nomes reais. Todos, exceto Simone. Comentários de fãs capturaram a frustração: "E mais uma vez erraram o nome da Simone em um artigo…" - documentando um padrão de apagamento da identidade profissional da atriz. Campanhas promocionais também foram feitas "SÓ com os brancos da série", como observou uma fã. Uma usuária chamada Thalia pontuou o problema com clareza cortante em 1º de janeiro: "Para um show que se construiu nas costas de um homem negro e se orgulha de sua 'fantasia da regência sem distinção de cor' e diversidade, suas promoções certamente são brancas pra caramba." O caso mais revelador documentado pelos fãs ocorreu em agosto de 2025, quando a Netflix publicou um artigo celebrando "Os Momentos Mais Anthony Bridgerton de Jonathan Bailey em Bridgerton".” O artigo celebrava o parceiro romântico de Kate, creditando "todos os outros protagonistas do show", mas Kate foi completamente deixada de fora da introdução. A ironia? Dos 5 momentos escolhidos para celebrar Anthony, 3 eram compartilhados com Kate. Ela estava literalmente presente, criando aqueles momentos ao lado dele, mas foi apagada. Outro comentário resume a dor: "Infelizmente eu to acostumada a não ter a Simone [nos artigos] porém a protagonista dessa temporada é uma atriz asiática... por que ela não tá aqui?” Em dezembro de 2025, a Netflix anunciou com pompa o nascimento do bebê de Penelope e Colin (casal branco da terceira temporada): Lord Elliot Featherington. Estilizado como uma página da sociedade de Lady Whistledown, foi a primeira vez que o show nomeou e celebrou publicamente um recém-nascido através de promoção oficial. Os fãs rapidamente apontaram: nenhum anúncio similar foi feito para os filhos de casais anteriores. Anthony e Kate tiveram seu filho na Índia durante a quarta temporada - mencionado apenas casualmente em diálogos. O mesmo vale para os filhos de Simon e Daphne. "Apesar da empolgação com a notícia do bebê, os fãs nos comentários estão furiosos com perguntas sobre por que não houve anúncio de nascimento para o Duque e a Duquesa da temporada 1. Fãs também têm muitas perguntas sobre um anúncio de nascimento para Kate, a Viscondessa, que estava grávida durante a temporada 3. Parece que a produção pode ter que compensar essa omissão de alguma forma." "Bridgerton construindo seu nome em diversidade/inclusão e depois marginalizando quaisquer casais com pessoas não brancas e dando mais atenção ao casal branco (objetivamente seu casal mais fraco e entediante até agora, diga-se de passagem) é realmente maldade." Fonte: Claire and Jamie A versão oficial tentou justificar a ausência de divulgação da Temporada 2 com dois motivos principais: restrições da pandemia de COVID-19 e conflitos na agenda de Jonathan Bailey (que atuava em Fellow Travelers) na época. No lançamento da Temporada 2 em março de 2022, as restrições globais eram bem menores do que na estreia da primeira temporada em dezembro de 2020. Regé-Jean Page e Phoebe Dynevor conseguiram capas de revista e sessões de fotos juntos em plena pandemia. Por que Simone e Jonathan não puderam? A presença dos dois em eventos de imprensa, muitas vezes acompanhados por Charithra Chandran, prova que eles estavam disponíveis sim. A decisão de não dar destaque ao casal romântico foi uma escolha, não uma questão logística. A reação ultrapassou a lamentação típica de fãs ("queria ver mais do meu casal favorito") e assumiu caráter político, utilizando a linguagem da justiça social e do ativismo antirracista. Hashtags como e threads virais no Twitter detalhando o "desrespeito" da produção tornaram-se comuns. Os fãs interpretaram a estratégia da Netflix como o que chamamos de “tokenismo”, ou seja, a empresa queria os créditos por ter uma protagonista sul-asiática de pele retinta, mas não queria investir nela como estrela de fato (A-list star), preferindo dar esse tratamento aos protagonistas brancos. Ironicamente, o apagamento de Simone Ashley não se limitou a Bridgerton. Em 2024, foi anunciado que ela havia sido escalada para o filme F1, estrelado por Brad Pitt. Mas quando o filme foi lançado em junho de 2025, descobriu-se que seu papel havia sido drasticamente cortado: ela aparece brevemente em uma cena sem falas. O diretor Joseph Kosinski tentou justificar: "Acontece em todo filme, onde você tem que filmar mais do que pode usar. Havia duas ou três linhas narrativas que no final não entraram no corte final." Ele acrescentou: "Mas Simone, ela é um talento incrível, atriz incrível, cantora incrível. E eu adoraria trabalhar com ela novamente." Palavras amáveis. Mas palavras não pagam contas ou constroem carreiras. O padrão se repete: escalar a atriz marrom, usar sua imagem para marketing de diversidade, depois diminuir ou eliminar sua presença no produto final. Voltemos às palavras de Shonda Rhimes sobre representação: "Quando você está assistindo televisão, você deveria poder ver pessoas que se parecem com você." E sobre como ela vê a diversidade na Índia de Kate Sharma especificamente: "A Netflix tem uma audiência global. Essa audiência é o mundo, literalmente. Eu queria ter certeza de que se você está assistindo Bridgerton de outro país, você não está pensando consigo mesmo: 'Bem, isso não tem nada a ver comigo.' Bem, absolutamente tem algo a ver com você. A humanidade em cada personagem deve parecer universal." De novo, lindas palavras, mas soam vazias comparadas a realidade: Simone teve tela, mas foi apagada da promoção e de todo o resto, como um crítico da Refinery29 observou após a primeira temporada: "Há uma diferença entre mostrar pele marrom na tela e representar pessoas marrons na tela." Essa diferença se tornou gritante na segunda temporada.” Vamos ser claros sobre o que aconteceu aqui. A Netflix e a Shondaland não falharam acidentalmente em promover Simone Ashley adequadamente, escolhas foram feitas sobre onde investir recursos de marketing, quais rostos colocar em capas de revistas, quais histórias celebrar publicamente. E essas escolhas revelam uma resposta desconfortável que é: a diversidade só importa quando é lucrativa e conveniente. Quando requer investimento real, proteção institucional e elevação consistente de talentos não-brancos - especialmente mulheres com pele mais escura, o compromisso evapora. Ó: puff. Isso não é incompetência. O conceito de tokenismo foi introduzido pela socióloga Rosabeth Moss Kanter em seu estudo seminal de 1977, Men and Women of the Corporation. Kanter usou o termo “token” (símbolo) para descrever a dinâmica de indivíduos pertencentes a grupos minoritários em ambientes dominados por grupos hegemônicos, especificamente quando a proporção é inferior a 15%. Segundo Kanter, o indivíduo “token” é submetido a três distorções perceptivas que limitam sua agência: visibilidade intensificada (tudo o que fazem é notado, criando pressão desproporcional), polarização (sua presença serve para ressaltar diferenças), e assimilação (são forçados a se ajustar a estereótipos preexistentes, tendo sua individualidade apagada). No contexto do entretenimento, tokenismo significa incluir representantes de grupos minoritários para criar uma aparência de diversidade e colher os benefícios reputacionais dessa inclusão, sem investir estruturalmente no suporte, promoção e empoderamento equitativo. Soa familiar? A segunda temporada de Bridgerton teve uma audiência gigantesca e Kate Sharma foi amada globalmente. Simone Ashley foi elogiada unanimemente por críticos e fãs. O sucesso estava lá, o talento mais ainda e a demanda do público também. O que faltou? Vontade de tratar uma protagonista sul-asiática com o mesmo nível de investimento promocional, celebração pública e proteção corporativa que protagonistas brancos recebem. E quando confrontada sobre, a Netflix permaneceu em silêncio. Quem diria? Nenhum comunicado, nenhuma retratação, apenas desculpas logísticas sobre agendas e pandemia que não resistem a cinco minutos de escrutínio. O caso da Simone Ashley em Bridgerton vai muito além de apenas uma fofoca de bastidores porque se trata de uma prova de que a indústria do entretenimento ainda opera sob uma hierarquia racial muito explícita: brancos no topo, porém pessoas racializadas na vitrine. A trajetória de Kate Sharma revela a persistência de um tokenismo de alto nível: a diversidade é bem-vinda como conteúdo, gerando valor de entretenimento e capital político para a marca. Mas é gerida com cautela, e às vezes negligência, nos bastidores do poder e do marketing. Para Shonda Rhimes, que construiu sua carreira como defensora da diversidade, esse caso representa uma mancha em seu legado. Suas palavras sobre inclusão são poderosas, mas precisam se traduzir em ação equitativa em todas as fases da produção, incluindo promoção, proteção e celebração de talentos diversos. Para a Netflix, a lição fica: a imagem corporativa depende de coerência. Sem alinhamento entre o símbolo (o que se mostra) e a prática (o que se faz), a diversidade continuará sendo apenas uma vitrine brilhante em uma loja cujas fundações permanecem excludentes. E para o público? Continuem acompanhando, documentando, exigindo mais do que representação e exigindo respeito. A Netflix pode ter 82 milhões de telespectadores para Bridgerton. Mas quantos deles ainda confiam na marca? Essa é a pergunta que deveria tirar o sono de todo mundo envolvido, não só de RP: quando a diversidade vira commodity, você não perde só a alma da marca, perde a confiança de quem mais acreditou em você e te colocou onde está. E confiança, uma vez perdida, é quase impossível de recuperar.




