top of page

O Brasil só consegue se olhar no retrovisor?



Em abril deste ano, mais de 1,6 milhão de brasileiros foram ao cinema ver a cinebiografia de Michael Jackson. R$ 40 milhões no primeiro fim de semana, sem debate, sem resistência, sem ninguém perguntando se merecia o esforço. Nas mesmas semanas, o cinema nacional acumulava sua segunda queda anual consecutiva de bilheteria.


Em 2025, apenas 8,4% do público total escolheu um filme brasileiro. Ainda Estou Aqui, o melhor filme nacional em décadas por qualquer critério, o primeiro a ganhar o Oscar de Melhor Filme Internacional na história do país, fez 5,8 milhões de espectadores. Lilo & Stitch fez quase o dobro. Ninguém enfezou com isso.



O Brasil tem um nome para isso. Nelson Rodrigues cunhou em 1958, ainda envolto na ressaca da Copa perdida para o Uruguu oito anos antes: complexo de vira-lata. A crença enraizada de que o que vem de fora é melhor por definição, e que o que é nosso, antes de qualquer argumento, provavelmente não presta. Não é preguiça intelectual. É uma postura aprendida, reforçada, e nos últimos anos, politicamente armada.


Durante o governo passado, a cultura brasileira foi transformada em campo de batalha. A Lei Rouanet, principal ferramenta de financiamento do audiovisual nacional, virou sinônimo de dinheiro público bancando a esquerda. O secretário de Cultura Roberto Alvim, antes de ser demitido por plagiar um discurso do ministro de propaganda nazista Joseph Goebbels, declarou que o financiamento público seria reservado a filmes que "dignificassem o ser humano", ou seja, filmes que não questionassem nada.


Em quatro anos, a mensagem foi martelada em grupos de família e redes sociais: apoiar cinema nacional é ser militante, defender arte brasileira é apenas fazer política e até mesmo alienação.


A vergonha de gostar do que é seu foi plantada como se fosse opinião própria. E funcionou. Parte do público que hoje não vai ver nada nacional carrega esse condicionamento sem saber de onde veio.


É nesse país que a fila de cinebiografias de 2026 precisa ser analisada. Chorão, Belchior, Roberto Carlos, Elza Soares, Carolina Maria de Jesus, Zeca Pagodinho, a leitura fácil é que a indústria está sendo conservadora, apostando em nomes seguros. Mas há uma camada mais incômoda: esses artistas não chegaram onde chegaram porque o Brasil os apoiou enquanto viviam, chegaram apesar do Brasil.


Belchior passou a última década de vida praticamente sumido. O jornalista Jotabê Medeiros escreveu sua biografia justamente porque o cantor estava desaparecendo do olho público antes de morrer, em 2017.


No ano seguinte à sua morte, virou cult. Hoje vai virar filme. É o mesmo ciclo de sempre: o Brasil não sabe o que tem enquanto está vivo, e descobre quando não dá mais para perder.


Carolina Maria de Jesus escreveu vinte cadernos à mão na favela do Canindé. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas foi ao bairro fazer uma reportagem, encontrou os cadernos e os transformou em livro e sem ele, a obra não existia como objeto editorial, o que já diz muito sobre quem historicamente decide o que vira cultura por aqui.



Quarto de Despejo vendeu cem mil exemplares em um ano e foi traduzido para treze idiomas. Ainda assim, o meio intelectual da época não aceitou que aquela mulher negra, catadora, moradora de favela, pudesse ter escrito aquilo sozinha. Circulava a teoria de que era obra de "um espertalhão, um golpe publicitário." Carolina morreu em 1977 quase esquecida. Agora vai virar filme, premiado em Cannes antes de estrear, dirigido por Jeferson De. Uma conquista, de fato, mas com o mesmo filtro de sempre: alguém de fora decidindo quando a história dela está pronta para ser contada.


Elza Soares passou décadas sendo marginalizada pela própria indústria que hoje a reverencia. Chorão enchia estádio enquanto a grande mídia olhava para outro lado. O país que não os sustentou enquanto viviam agora os transforma em produto seguro, com público já formado, trilha sonora conhecida e saudade suficiente para vender ingresso sem precisar convencer ninguém.


A Times Brasil descreveu sem rodeios: o cinema nacional investe em cinebiografias para "reduzir risco ao trabalhar com marcas já conhecidas do público." Marcas. É isso que Belchior virou.


É o vira-latismo operando de dentro para fora: o Brasil só consegue valorizar o que já passou pelo crivo do tempo, porque confiar no presente ainda parece arriscado demais.


Quando "Homem com H", sobre Ney Matogrosso, estreou em 2025, as salas encheram. Mais de 600 mil ingressos, liderança na Netflix. Funcionou porque Ney ainda está vivo, ainda incomoda, ainda não cabe em moldura. Não era homenagem. Era um encontro. E essa diferença importa, porque o cinema que chegou ao Oscar — Walter Salles, que nunca fez filme neutro na vida e ainda bem — é o cinema que tratou o presente como urgente, não como risco. A resposta da indústria a esse momento histórico foi uma fila de biografias de quem já se foi.



Isso não é crítica aos filmes, de forma alguma. É uma pergunta sobre o que o Brasil está fazendo com o momento que tem.


O mesmo público que foi ver Michael Jackson sem pestanejar, que cresce numa cultura que aprendeu a sentir vergonha do que é seu, precisa ser o mesmo público que enche sala para Belchior, para Carolina, para um diretor de 30 anos com roteiro que ninguém nunca ouviu falar. Não porque é obrigação patriótica. Mas porque arte nacional não é concessão, é o único espelho que mostra o Brasil de verdade. E o Brasil tem fugido desse espelho há tempo demais.


O Brasil só consegue se olhar no retrovisor porque o para-brisa dá trabalho demais.


As cinebiografias de Chorão, Belchior, Roberto Carlos, Elza Soares, Carolina Maria de Jesus e Zeca Pagodinho estão em produção ou aguardando data de estreia ao longo de 2026. O filme Michael arrecadou R$ 40 milhões no Brasil no primeiro fim de semana, em abril de 2026.

Comentários


bottom of page