top of page

Tokenismo, diversidade e responsabilidade social no caso Simone Ashley e a imagem da Netflix




A indústria do entretenimento está passando, nessas primeiras décadas do século XXI, por um período de reconfiguração no que diz respeito às políticas de representação e identidade. Se durante grande parte do século XX a hegemonia de Hollywood e das produções televisivas ocidentais foi marcada pela invisibilidade ou pela estereotipização de grupos minoritários, a ascensão das plataformas de streaming inaugurou uma nova era caracterizada pela "diversidade global".


Com isso, a Netflix se consolidou como uma força que constrói sua reputação corporativa em torno de valores progressistas, da inclusão e da promessa de "uma TV para o mundo". A plataforma colabora com iniciativas como a USC Annenberg Inclusion Initiative para medir e ampliar representação de gênero, raça/etnia e grupos LGBTQIA+ tanto nas telas quanto dentro da própria organização, publicando relatórios de inclusão que buscam transparência sobre esses esforços.


Posteriormente, a série Bridgerton, lançada em dezembro de 2020 sob a chancela da produtora Shondaland de Shonda Rhimes, surgiu como uma referência dessa estratégia. Ao reimaginar a Regência Britânica através de uma lente diversificada, a produção propôs um pacto visual de reparação histórica, ainda que no terreno da fantasia.


E foi justamente Shonda Rhimes quem declarou sem rodeios sua visão: 


São palavras bonitas, mas, infelizmente, não foram o suficiente para tomar atitude na hora de valorizar e proteger uma das personagens mais importantes da série.


A passagem de uma representatividade  mais simbólica para uma verdadeira igualdade se mostrou um caminho cheio de dificuldades e contradições, revelando justamente o tipo de apagamento que Rhimes dizia tentar combater.


Simone Ashley, nascida em 30 de março de 1995 em Surrey, Inglaterra, é uma atriz britânica de ascendência tâmil indiana que ganhou destaque por suas atuações em produções de grande alcance internacional. 


Filha de pais indianos tamil que imigraram para o Reino Unido, Ashley cresceu navegando entre duas culturas como ela mesma compartilhou em entrevista à Glamour: 



Formada na ArtsEd School de Londres, Ashley iniciou sua carreira com participações em produções como Broadchurch (2017) e Sex Education (2019), série da Netflix em que interpretou Olivia Hanan. Sua presença constante em produções voltadas a públicos jovens e diversos consolidou sua imagem como representante de uma nova geração de artistas que desafiam padrões eurocêntricos.


A projeção internacional de Ashley se intensificou dramaticamente com sua escalação como protagonista da segunda temporada de Bridgerton (2022), onde interpretou Kate Sharma.


Jonathan Bailey, que interpretou Anthony Bridgerton ao lado de Ashley, foi ainda mais efusivo:



A segunda temporada tornou-se um sucesso global sem precedentes. A personagem Kate Sharma foi celebrada por ampliar a representatividade sul-asiática em produções de época, tradicionalmente marcadas pela ausência de diversidade racial. 


Rhimes defendeu a decisão: 



Fãs sul-asiáticos celebraram emocionalmente pela primeira vez se verem refletidos de forma digna em uma produção de época. Comentários nas redes sociais expressaram esse sentimento:


"Bridgerton é a primeira vez que me senti respeitada e representada de forma satisfatória. Como um abraço caloroso de uma garota marrom coberta de haldi. Obrigada @shondarhimes"
"Ver mulheres tâmil sul-asiáticas de pele escura em um grande show da Netflix é tão reconfortante. Há tanto colorismo e racismo só na Ásia do Sul, sem falar em sua indústria cinematográfica, então estou além de orgulhosa de todas as belas mulheres marrons em Bridgerton sendo a representação que precisávamos"
"Nunca consegui parar de pensar em como Bridgerton é a primeira vez que vi um personagem indiano na televisão sem fazer disso um grande problema. Eles não são diferentes porque são marrons, eles simplesmente SÃO"

No entanto, essa celebração inicial daria lugar a uma decepção profunda e uma lição dolorosa sobre a diferença entre representação e respeito.


A forma como a série e a própria Netflix geriram a continuidade e a visibilidade de Ashley nas temporadas seguintes provocou debates intensos sobre a superficialidade das políticas de diversidade no entretenimento contemporâneo. O caso se tornou emblemático quando os fãs começaram a documentar as diferenças no tratamento promocional.


Como evidenciado nas imagens compartilhadas, artigos da própria Netflix e de veículos como Variety sistematicamente omitiram o nome de Simone Ashley, referindo-se a ela apenas como "Kate Bridgerton" - o sobrenome de casamento da personagem - enquanto todos os outros atores eram identificados pelos seus nomes reais. Um artigo da Variety sobre o elenco de Bridgerton listou: 


"Luke Thompson, Yerin Ha, Jonathan Bailey, Victor Alli, Adjoa Andoh, Julie Andrews, Lorraine Ashbourne, Masali Baduza, Nicola Coughlan, Hannah Dodd, Daniel Francis, Ruth Gemmell, Florence Hunt, Martins Imhangbe, Claudia Jessie, Luke Newton, Golda Rosheuvel, Will Tilston, Polly Walker, Emma Naomi, Hugh Sachs, Kate Bridgerton, Isabella Wei, Michelle Mao, Katie Leung."


Note: todos com seus nomes reais. Todos, exceto Simone. Comentários de fãs capturaram a frustração: "E mais uma vez erraram o nome da Simone em um artigo…" - documentando um padrão de apagamento da identidade profissional da atriz.


Campanhas promocionais também foram feitas "SÓ com os brancos da série", como observou uma fã. Uma usuária chamada Thalia pontuou o problema com clareza cortante em 1º de janeiro: "Para um show que se construiu nas costas de um homem negro e se orgulha de sua 'fantasia da regência sem distinção de cor' e diversidade, suas promoções certamente são brancas pra caramba."


O caso mais revelador documentado pelos fãs ocorreu em agosto de 2025, quando a Netflix publicou um artigo celebrando "Os Momentos Mais Anthony Bridgerton de Jonathan Bailey em Bridgerton".”


O artigo celebrava o parceiro romântico de Kate, creditando "todos os outros protagonistas do show", mas Kate foi completamente deixada de fora da introdução.


A ironia? Dos 5 momentos escolhidos para celebrar Anthony, 3 eram compartilhados com Kate. Ela estava literalmente presente, criando aqueles momentos ao lado dele, mas foi apagada.


Outro comentário resume a dor: "Infelizmente eu to acostumada a não ter a Simone [nos artigos] porém a protagonista dessa temporada é uma atriz asiática... por que ela não tá aqui?”


Em dezembro de 2025, a Netflix anunciou com pompa o nascimento do bebê de Penelope e Colin (casal branco da terceira temporada): Lord Elliot Featherington. Estilizado como uma página da sociedade de Lady Whistledown, foi a primeira vez que o show nomeou e celebrou publicamente um recém-nascido através de promoção oficial.


Os fãs rapidamente apontaram: nenhum anúncio similar foi feito para os filhos de casais anteriores. Anthony e Kate tiveram seu filho na Índia durante a quarta temporada - mencionado apenas casualmente em diálogos. O mesmo vale para os filhos de Simon e Daphne.


"Apesar da empolgação com a notícia do bebê, os fãs nos comentários estão furiosos com perguntas sobre por que não houve anúncio de nascimento para o Duque e a Duquesa da temporada 1. Fãs também têm muitas perguntas sobre um anúncio de nascimento para Kate, a Viscondessa, que estava grávida durante a temporada 3. Parece que a produção pode ter que compensar essa omissão de alguma forma."
"Bridgerton construindo seu nome em diversidade/inclusão e depois marginalizando quaisquer casais com pessoas não brancas e dando mais atenção ao casal branco (objetivamente seu casal mais fraco e entediante até agora, diga-se de passagem) é realmente maldade."

A versão oficial tentou justificar a ausência de divulgação da Temporada 2 com dois motivos principais: restrições da pandemia de COVID-19 e conflitos na agenda de Jonathan Bailey (que atuava em Fellow Travelers) na época.


No lançamento da Temporada 2 em março de 2022, as restrições globais eram bem  menores do que na estreia da primeira temporada em dezembro de 2020. Regé-Jean Page e Phoebe Dynevor conseguiram capas de revista e sessões de fotos juntos em plena pandemia. 


Por que Simone e Jonathan não puderam?


A presença dos dois em eventos de imprensa, muitas vezes acompanhados por Charithra Chandran, prova que eles estavam disponíveis sim. A decisão de não dar destaque ao casal romântico foi uma escolha, não uma questão logística.


A reação ultrapassou a lamentação típica de fãs ("queria ver mais do meu casal favorito") e assumiu caráter político, utilizando a linguagem da justiça social e do ativismo antirracista. Hashtags como 


e threads virais no Twitter detalhando o "desrespeito" da produção tornaram-se comuns.

Os fãs interpretaram a estratégia da Netflix como o que chamamos de “tokenismo”, ou seja, a empresa queria os créditos por ter uma protagonista sul-asiática de pele retinta, mas não queria investir nela como estrela de fato (A-list star), preferindo dar esse tratamento aos protagonistas brancos.


Ironicamente, o apagamento de Simone Ashley não se limitou a Bridgerton. Em 2024, foi anunciado que ela havia sido escalada para o filme F1, estrelado por Brad Pitt. Mas quando o filme foi lançado em junho de 2025, descobriu-se que seu papel havia sido drasticamente cortado: ela aparece brevemente em uma cena sem falas.



Palavras amáveis. Mas palavras não pagam contas ou constroem carreiras. O padrão se repete: escalar a atriz marrom, usar sua imagem para marketing de diversidade, depois diminuir ou eliminar sua presença no produto final.


Voltemos às palavras de Shonda Rhimes sobre representação: "Quando você está assistindo televisão, você deveria poder ver pessoas que se parecem com você."


E sobre como ela vê a diversidade na Índia de Kate Sharma especificamente:



De novo, lindas palavras, mas soam vazias comparadas a realidade: Simone teve tela, mas foi apagada da promoção e de todo o resto, como um crítico da Refinery29 observou após a primeira temporada:



Vamos ser claros sobre o que aconteceu aqui. 


A Netflix e a Shondaland não falharam acidentalmente em promover Simone Ashley adequadamente, escolhas foram feitas sobre onde investir recursos de marketing, quais rostos colocar em capas de revistas, quais histórias celebrar publicamente.


E essas escolhas revelam uma resposta desconfortável que é: a diversidade só importa quando é lucrativa e conveniente. Quando requer investimento real, proteção institucional e elevação consistente de talentos não-brancos - especialmente mulheres com pele mais escura, o compromisso evapora. Ó: puff.


Isso não é incompetência. 


O conceito de tokenismo foi introduzido pela socióloga Rosabeth Moss Kanter em seu estudo seminal de 1977, Men and Women of the Corporation. Kanter usou o termo “token” (símbolo) para descrever a dinâmica de indivíduos pertencentes a grupos minoritários em ambientes dominados por grupos hegemônicos, especificamente quando a proporção é inferior a 15%. 


Segundo Kanter, o indivíduo “token” é submetido a três distorções perceptivas que limitam sua agência: visibilidade intensificada (tudo o que fazem é notado, criando pressão desproporcional), polarização (sua presença serve para ressaltar diferenças), e assimilação (são forçados a se ajustar a estereótipos preexistentes, tendo sua individualidade apagada). 


No contexto do entretenimento, tokenismo significa incluir representantes de grupos minoritários para criar uma aparência de diversidade e colher os benefícios reputacionais dessa inclusão, sem investir estruturalmente no suporte, promoção e empoderamento equitativo. Soa familiar?


A segunda temporada de Bridgerton teve uma audiência gigantesca e Kate Sharma foi amada globalmente. Simone Ashley foi elogiada unanimemente por críticos e fãs. O sucesso estava lá, o talento mais ainda e a demanda do público também.


O que faltou? Vontade de tratar uma protagonista sul-asiática com o mesmo nível de investimento promocional, celebração pública e proteção corporativa que protagonistas brancos recebem.


E quando confrontada sobre, a Netflix permaneceu em silêncio. Quem diria?


Nenhum comunicado, nenhuma retratação, apenas desculpas logísticas sobre agendas e pandemia que não resistem a cinco minutos de escrutínio. 



O caso da Simone Ashley em Bridgerton vai muito além de apenas uma fofoca de bastidores porque se trata de uma prova de que a indústria do entretenimento ainda opera sob uma hierarquia racial muito explícita: brancos no topo, porém pessoas racializadas na vitrine.


A trajetória de Kate Sharma revela a persistência de um tokenismo de alto nível: a diversidade é bem-vinda como conteúdo, gerando valor de entretenimento e capital político para a marca.


Mas é gerida com cautela, e às vezes negligência, nos bastidores do poder e do marketing.


Para Shonda Rhimes, que construiu sua carreira como defensora da diversidade, esse caso representa uma mancha em seu legado. Suas palavras sobre inclusão são poderosas, mas precisam se traduzir em ação equitativa em todas as fases da produção, incluindo promoção, proteção e celebração de talentos diversos.


Para a Netflix, a lição fica: a imagem corporativa depende de coerência. Sem alinhamento entre o símbolo (o que se mostra) e a prática (o que se faz), a diversidade continuará sendo apenas uma vitrine brilhante em uma loja cujas fundações permanecem excludentes.


E para o público? Continuem acompanhando, documentando, exigindo mais do que representação e exigindo respeito.


A Netflix pode ter 82 milhões de telespectadores para Bridgerton. Mas quantos deles ainda confiam na marca?


Essa é a pergunta que deveria tirar o sono de todo mundo envolvido, não só de RP: quando a diversidade vira commodity, você não perde só a alma da marca, perde a confiança de quem mais acreditou em você e te colocou onde está.


E confiança, uma vez perdida, é quase impossível de recuperar.



Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page