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Irã: Por que não podemos deixar de olhar




Imagine não poder respirar e imagine ter fome mas não poder se alimentar. Agora imagine que essa situação não melhora, ela piora a cada dia e o mundo simplesmente para de prestar atenção.


Essas palavras de Kamin Mohammadi, escritora e jornalista iraniana são a realidade nua e crua de 90 milhões de iranianos no exato momento em que você está lendo este artigo.


Desde 28 de dezembro, o Irã enfrenta um apagão de internet. Trata-se de um cerco tecnológico que impede que informações entrem e, principalmente, que saiam do país.




Segundo a Human Rights Activists in Iran (HRA/HRANA), organização que cruza informações com fontes dentro do país, 5.002 pessoas foram mortas desde o início dos protestos — incluindo 43 crianças menores de 18 anos. Mais de 12.000 casos ainda aguardam verificação. Mas devido ao bloqueio contínuo da internet, a documentação avança com extrema lentidão.


Skylar Thompson, diretora adjunta da HRA, declarou: 


"Apesar dos bloqueios contínuos da internet, permanecemos comprometidos em documentar cada ser humano por trás da brutalidade do regime e em desafiar a tentativa do regime de retratar os corajosos iranianos como qualquer coisa menos do que isso."

Os números são chocantes, mas as histórias individuais são ainda mais devastadoras. Kamin Mohammadi relata: 


"Há histórias de mães tendo que vasculhar pilhas de corpos para identificar seus filhos mortos; de ter que pagar um preço por bala, por cada bala com a qual foram atingidos, para conseguir os corpos de volta." 

Essa é a escala da desumanização, transformar o luto em mercadoria e converter a dignidade em moeda de barganha.


Mohammadi descreve a dimensão do bloqueio: "Este país está em apagão de internet há quase três semanas. Se você fosse um manifestante e estivesse sangrando no chão, não poderia nem chamar uma ambulância." O controle da informação corta as linhas de vida básicas. É sobre isolar completamente a população, transformando cada cidade, cada rua, cada residência em uma ilha cercada de silêncio forçado.


Como ela destaca: "Não se trata apenas de cortar as pessoas do mundo exterior, trata-se de cortá-las de dentro." Quando não é possível comunicar emergências médicas, coordenar ajuda humanitária ou simplesmente informar familiares sobre sua segurança, o Estado consegue fragmentar a própria sociedade, destruindo os laços de solidariedade que sustentam qualquer resistência coletiva.



Talvez o aspecto mais assustador seja esse: à medida que as notícias mudam, o Irã acaba deixando de ser destaque. 


As redes sociais pulam para o próximo assunto viral, e os algoritmos, que só pensam em gerar engajamento imediato, não se importam com o sofrimento das pessoas. Mas a dor não desaparece só porque a atenção diminui.  


Mohammadi explica bem essa realidade cruel: "Hoje, mais do que nunca, precisamos estar atentos ao Irã. A violência desse regime é sem precedentes. As pessoas estão presas dentro do país, sendo reprimidas por um governo que não mostra misericórdia."  


O pedido não é por pena, é por ação e testemunho. Porque, quando o mundo vira as costas, os regimes autoritários interpretam isso como um sinal de que podem intensificar ainda mais a violência. O silêncio internacional, nesse sentido e realidade, acaba sendo uma forma de cumplicidade.



A pergunta que inevitavelmente surge é



A resposta pode parecer insuficiente diante da magnitude da crise, mas não insignificante.


Primeiro, amplificar vozes iranianas. Organizações como a Abdorrahman Boroumand Center for Human Rights in Iran, Center for Human Rights in Iran (CHRI), Middle East Matters (MEM) e Human Rights Activist News Agency (HRA/HRANA) trabalham incansavelmente para documentar violações e dar voz aos silenciados. Seguir, compartilhar e apoiar essas organizações é fundamental.


Segundo, recusar a normalização. Quando o Irã desaparece das manchetes, é confortável presumir que a situação melhorou. Mas o apagão de informação é precisamente projetado para criar essa ilusão. Manter a atenção, fazer perguntas, exigir cobertura jornalística contínua também ajuda.


Terceiro, pressionar governos e instituições. Sanções direcionadas a autoridades responsáveis por violações de direitos humanos, apoio a organizações humanitárias que trabalham com refugiados iranianos, e insistência em que organismos internacionais mantenham o Irã na agenda, tudo isso faz diferença.


Quarto, educar-se e educar outros. A desinformação e a simplificação excessiva são aliadas da repressão. Entender a complexidade da situação iraniana, as raízes históricas do regime atual, as dinâmicas internas da resistência, isso nos torna defensores mais eficazes.



O lema "Mantenha seus olhos no Irã" é também uma forma de sobrevivência, porque regimes autoritários crescem na escuridão, na invisibilidade, confiantes de que podem agir sem serem percebidos ou punidos. 

 

Mohammadi resume bem: "No Irã, estamos vendo um massacre numa escala nunca antes vista." Diante dessa realidade, a indiferença não é uma opção moralmente aceitável. Não precisamos ter todas as respostas ou ser especialistas em política do Oriente Médio. 


Basta simplesmente nos recusar a desviar o olhar.



A história nos julgará não apenas pelas coisas que fizemos, mas também pelas que vimos e decidimos ignorar. 


Os 90 milhões de iranianos cortados do mundo neste momento são professores, estudantes, médicos, artistas, mães, pais, crianças. Pessoas que têm o direito fundamental à dignidade constantemente negado, pessoas gravemente negligenciadas.


Kamin Mohammadi ainda tenta se comunicar com sua família por causa do apagão. Milhares de outras famílias estão na mesma situação difícil e desesperadora e enquanto isso, o regime aproveita nossa atenção limitada, nossa fadiga com notícias ruins e nossa tendência de seguir em frente sem parar para pensar.


Porém, temos a possibilidade de escolher algo diferente. 


Podemos escolher lembrar, podemos escolher falar, podemos optar por agir, mesmo que nossas ações pareçam pequenas diante de tanto sofrimento. 


Porque, como a resistência iraniana mostra dia após dia, coragem não é a ausência de medo ou de impotência, é a recusa de deixar que eles tenham a última palavra.


Confira aqui

Organizações para amplificar e apoiar





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